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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Maestro Bembem Dantas: regente de uma mudança sócio-musical do interior potiguar

Maestro Bembem Dantas: regente de uma mudança sócio-musical do interior potiguar
E se lhe perguntassem o maior nome do atual cenário da cultura potiguar, em qualquer área? Difícil, né? Tivemos só este ano um Far From Alaska estampado em tantas manchetes. O Camarones Orquestra Guitarrística no Rock in Rio. O Clowns de Shakespeare mantendo o prumo como um dos maiores grupos do teatro brasileiro. O ator José Neto Barbosa eleito melhor ator nacional. O escritor Estevão Azevedo escolhido com melhor romance do Prêmio São Paulo de Literatura. O ainda atuante Abrahan Palatnik…
Afora este último e talvez o Clowns com seus 12 anos de estrada, os outros são “fenômenos” relativamente recentes. Mas fora da mídia convencional ou alternativa. Fora da Natal ou Grande Natal. Fora dos coletivos, buchichos ou panelas. Fora das leis de incentivo ou do olhar mercantilista da iniciativa privada, reside hoje um nome bem encaixado neste status – totalmente inútil, é verdade – de maior nome da cultura potiguar. Uma trajetória profissional de quase 40 anos dedicados à música.
Humberto Carlos Dantas, ou o maestro Bembem, nunca foi convidado a um festival grandioso de música. Nem recebeu tantas estampas da grande mídia. Muito menos percorreu palcos do Brasil e do mundo com espetáculos teatrais. Nem venceu premiação nacional. Ou mesmo deixou seu Rio Grande do Norte para mostrar sua arte nos grandes centros. Mora ainda no seu Seridó de nascença e mantém o mesmo propósito há décadas: formar jovens músicos e fundar bandas de música pelo interior do Estado potiguar.
bembem
Bembem nem precisa de tudo isso: dos palcos do mundo, das premiações nacionais ou da arte reconhecida para além dos limites deste Elefante de muralhas tão altas. Nem que reconheçam seu rosto, sua voz ou mesmo sua origem. Acho que não. Ora, o maestro, criado em sítio do município de Acari, tem como feedback, além do conforto de uma rede no alpendre, a gratidão de dezenas de milhares de crianças, jovens e adultos desta e de outra geração. Todos musicistas formados ou em formação.

Esse sentimento de gratidão se percebe mesmo é no olhar, no trato do dia-a-dia. Mas vamos aos números: hoje, somente hoje – sem contar décadas de esforço – ele trabalha diretamente com mais de cinco mil crianças e jovens. Hoje chegaram mais de R$ 76 mil para compra de instrumentos e acessórios nos municípios de Várzea e Passa e Fica. Bembem continua regente há 16 anos da secular e mais famosa filarmônica do Estado, em Cruzeta. O maestro já implantou nada menos que 46 Bandas de Música em municípios potiguares organizadas em associações culturais, ou seja: um projeto sólido, com bases para autossuficiência e longevidade.
Essas 46 Bandas foram viabilizadas pelo projeto Banda Filarmônica da Juventude, coordenada por Bembem. Todas elas têm como mentor um jovem músico graduado. Todas! E por esse projeto há em processo a criação de outras 40 Bandas de Música e mais quatro mil crianças e adolescentes atendidos, preenchendo quase todo o território potiguar com pelo menos uma Bandinha de Música. São mais 40! Seria o único Estado brasileiro com esse feito. E que feito! Para quem conhece a realidade do interior sabe a importância desse patrimônio cultural que são as bandinhas de música.
E desse modo Bembem Dantas rege não uma banda ou filarmônica, não um projeto de criação de outras Bandas. Bembem rege o futuro de todo uma “comunidade” interiorana que clama por atenção, que grita por oportunidades. Rege a continuidade de uma tradição musical potiguar que remonta séculos e que provavelmente representa a maior identidade musical do nosso Estado: as bandinhas de música, as filarmônicas do interior de Felinto Lúcio, de Tonheca Dantas, de Urbano Medeiros que foi mentor do herdeiro Bembem.
O maestro Bembem mudou, definitivamente, o cenário não só musical no interior do Rio Grande do Norte, para além do seu Seridó. Arrisco afirmar que Bembem colaborou com uma mudança social e econômica formando pessoas e músicos ao longo de 40 anos, firmando patrimônios culturais em cada município. Pena a homenagem que preparei, com slides de imagens, vídeo e texto como o gran finale do Troféu Cultura tenha sido atropelada pelo improviso da cerimônia. Mas fica aqui, maestro, meu respeito à sua pessoa e ao seu trabalho abnegado.
Parabéns!
Filarmônica de Cruzeta
Clique AQUI para assistir o vídeo 




Foto de capa: Ivanízio Ramos
Crédito da matéria SUBSTANTIVO PLURAL/SÉRGIO VILLAR (LINK)

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