domingo, 3 de janeiro de 2016

Quando um policial em serviço é assassinado, a culpa é de quem?

Ontem (3) por volta das 18h40m no bairro do Geisel em João Pessoa/PB dois nobres policiais da polícia militar receberam determinação para averiguar uma possível ação de criminosos. Um local escuro, margeado por um matagal. Os policiais foram recebidos a tiros, no mesmo instante que perceberam os bandidos escondidos no mato. Um criminoso com espingarda calibre 12 efetuou disparos, e o sargento Sandro Pereira da Silva pertencente a 5ª Companhia do 5º BPM foi atingido no rosto. Socorrido até o hospital, não resistiu aos ferimos e às 03h10m faleceu. O sargento Sandro que trabalhava na UPS – Unidade de Polícia Solidaria do Geisel recebeu no rosto a “pancada” dos projetis de chumbo quente.
Pancada semelhante que a sociedade e o governo brasileiro impõem todos os dias aos policiais do Brasil: Dor, decepção, incapacitação, privação de direitos, carência de recursos, desvalorização da atividade policial e ausência de apoio.
Quem protege a sociedade? Quem ajuda a manter a ordem pública?
A resposta é evidente: a Polícia, através de homens e mulheres destemidos que diuturnamente colocam suas vidas em risco para que toda sociedade ingrata esteja segura. Logicamente deveria vir da sociedade a maior indignação pela perda violenta de qualquer profissional da Segurança.
Quando um policial em serviço é assassinado toda sociedade foi atacada violentamente e o estado revela toda a sua incompetência. Portanto, é uma violência contra todos nós. Mas no Brasil a lógica parece ser de cinismo. A vida aqui nada vale! Nem a minha, nem a sua, nem tão pouco de quem nos protege quando dormimos.
Se os policiais são os cuidadores da comunidade, então quem cuida dos cuidadores?
 A família do sargento Sandro e nós companheiros de farda desejamos profundamente saber de quem é a culpa por esta terrível e irreparável perda. De quem é a culpa?
Para começar este diálogo queremos saber porquê o sargento Sandro estava acompanhado apenas de seu policial motorista, ou seja, praticamente só. Para quem sabe o que é uma atividade operacional, será fácil compreender que o motorista policial estava concentrado no comando da direção da viatura no momento do atentado que levaria depois a vida do seu companheiro, protetor da comunidade.
Sargento Sandro residia no bairro que trabalhava e protegia. O bairro do Geisel chora profundamente. A família em desespero e em sua extrema agonia exige a vida de seu maior bem: O pai, o filho, o esposo, o cuidador.
De quem é a culpa então?
A pergunta que não quer calar? De quem é a culpa? E por que? O que podemos fazer para se evitar outras mortes? Logicamente precisamos cuidar para que estas perguntas sejam respondidas, e que elas possam evitar outras perdas irreparáveis, como está sendo a do nosso amigo, companheiro de turma, companheiro de trabalho, Sandro.
Já começaríamos tentando responder sem querer colocar a culpa em alguém especificamente. Mas precisamos lembrar que uma guarnição policial de rádio patrulha ou qualquer outra atividade de polícia requer número superior de força, recursos expressivos, apoio, procedimentos e estratégias. Sandro estava acompanhado apenas de seu motorista policial.
O seu patrulheiro estava a serviço de uma custodia de um preso.
Na academia de polícia, os agentes públicos aprendem que só se deve abordar quando em número e força superior de policiais sobre suspeitos. Neste caso em especifico, Sandro estava praticamente só já que ao volante estava seu motorista que ao ver seu superior hierárquico caído ao solo reagiu ao estranho, violento, injusto e covarde ataque dos bandidos. Foi graças a sua reação que a tragédia não se veio em dobro.
Ao meu ver nos falta quase tudo para trabalhar menos disposição e coragem. Falta recursos tecnológicos, nos falta instrumentos e equipamentos. Falta até mesmo as questões mais básicas, tais como: Lanterna policial; visores noturno; cães farejadores; GPS; viaturas policial preparadas para a atividade de polícia e em condições de um bom desempenho; binóculos; computador abordo; armas com assessórios para situações especificas; rádio de comunicação e sistema de comunicação adequado a atividade de polícia; fardamento adequado a atuação policial; coldres táticos em polímero de saque rápido com sistema de trava e sistema flutuante adequado a atividade policial. Os coldres policial coloca em risco a vida dos agentes de segurança, pois não possuem alguns requisitos de eficácia e eficiência para o dia a dia do policial, e para os embates armado ou corpo a corpo colocando, assim, a vida de pessoas em risco.
Falta-nos um sistema de comunicação moderno para as viaturas que recebem as ocorrências. Falta um sistema operacional capaz de fazer o monitoramento das atividades e das viaturas da polícia que esse recurso seja um apoio para os policiais de rua.
Quando uma viatura vai para uma chamada, na maioria das vezes, fica rodando minutos a mais até encontrar a localização exata da residência pois não há GPS para localizar a ocorrência. Enquanto isso, o cidadão reclama da demora da viatura sem saber que tem muita gente culpada, menos os policiais.
Muito pelo contrário, em inúmeros casos nós temos que encontrar o local na base do palpite principalmente se não conhecer o território, fato muito presente na nossa atividade policial já que a polícia comunitária não é plena ainda nos bairros das cidades paraibanas. Portanto falta quase tudo.
Falta inclusive policiais. Há um descalabro ilógico e desmedido na ausência de uma renovação e aumento do efetivo policial. Insistimos que o problema já começa na seleção com a falta do perfil profissiografico de pessoas para trabalhar na atividade policial. Falta uma revolução metodológica e pedagógica na formação policial.
São os policiais que conhecem o ‘saber fazer’ da atividade policial nos territórios violentos. A sociedade precisa de policiais vivos e que possam ser produtivos. Mas a ditadura e atual “censura” marginalizou o senso crítico dos policiais.
Como nós podemos colaborar na construção de uma força policial mais eficiente, se a nós é negado o senso crítico que só se pode manifestar através da livre expressão? Então, quem fará a construção de uma segurança pública e de uma polícia mais eficiente serão os burocratas de plantão? Que logica é essa?
A morte de policiais é inaceitável! Na Paraíba as ações da Segurança Pública está alinhada ao princípio da continuidade, ou seja, a polícia da continuidade do que fez ontem, o ano passado, a dez anos atrás – tudo isso está nos manuais da polícia.
Mas o que falta então? Faltam inovação, adequação, modernização, esforço conjunto, democratização dentro da polícia, participação, reformas, iniciativas progressistas, gestão compartilhada que não seja apenas de oficial e delegados, mas de toda corporação.
 Acreditem! Falta-nos coisas complexas e coisas básicas.
A Segurança Pública da PB precisa construir o POP – Procedimento Operacional Padrão. Onde os policiais são formados e capacitados para atuarem seguindo um conjunto de regras e estratégias básicas para à atividade na rua. É preciso que o Estado forme policiais gestores e auto gestores e não meros cumpridores de ordens. Para cumprir ordens basta ser militar.
Não queremos apenas militares, necessitamos de construtores da Cidadania de Segurança Pública. O policial numa sociedade plena torna-se o pedagogo da Cidadania. Portanto, policiais precisam, necessariamente, pensar! Insanos os que, dentro das policias militares, acreditam que o soldado serve apenas para cumprir ordem. Estes precisam rever seus conceitos.
O que salva policiais na rua é procedimento! Este é um tema que deve ser discutido com toda força policial e de Segurança. Portanto, a culpa de todas as mortes de policiais na Paraíba e no Brasil é, sem dúvida, da falta de uma política séria de Segurança Pública e Defesa Social.
 Onde estão as políticas públicas de Segurança? Quem comanda o Estado? Quem deixa de implantar as Políticas de Segurança? E Porquê? A quem interessa uma polícia debilitada?
O estado não cumpriu seu dever de educar, inserir o sujeito no mercado de trabalho, e ou não trancafiou definitivamente estes criminosos que cometem crimes. A maioria é presa, mas volta as ruas em seguida, mata policiais e amedronta toda uma sociedade.
Os políticos só lembram de Segurança, Educação e Saúde no período das eleições. Os governadores fazem a maior publicidade de entregas de viaturas, armas e coletes. Isso é uma vergonha do ponto de vista que a Segurança Pública alcança dimensões de ciência, sociedade e território e não apenas de simples instrumentos de trabalho à disposição de qualquer trabalhador em atividade de vigilância.
É preciso que a sociedade entenda que a violência social é culpa do Estado. A morte de policiais em serviço é culpa do Estado. A morte de trabalhadores é culpa do Estado. Roubos e violência é culpa do Estado. Delitos é culpa do Estado. Ineficiência da Polícia é culpa do Estado. Desordem e contravenções social é culpa do Estado.
Quem comanda o Estado são pessoas que politicamente tem a governabilidade a partir de acordos políticos e que, nas entrelinhas, desses acordos há a grande chaga da sociedade brasileira, a corrupção.
Devemos lembrar que há décadas o Estado não fez sua parte de educar. É na vala da corrupção que o dinheiro deixa de ir para Escolas e melhores condições de ensino e aprendizado, hospitais, reformas das cidades e recursos para a Segurança Pública.
Evidentemente não podemos colocar a culpa apenas em quem comanda o Estado. Mas também não devemos esquecer dos governantes que governaram e sentaram na cadeira do poder. Qual foi o legado dos governos anteriores na Segurança Pública? Nenhum! Muito pelo contrário foi um mar de incompetência. Na educação um mar de poeira.
Ficamos a imaginar o sentimento de quem, na época, deveria ter feito algo de bom para segurança e não fez. Herdamos a má política dos maus políticos; a precarização da saúde; a favelização de comunidades; a fragilidade da Segurança Pública.
Desde sempre o Estado brasileiro não teve o compromisso com a Segurança Pública. O Estado e os governadores nunca tomaram para si a responsabilidade de construir a partir do diálogo as Políticas Públicas de Segurança. Preferiram ouvir entre quatro paredes os seus corsários políticos e esquecer as vozes que gritavam e gritam nas ruas pedindo socorro.
Manchado de sangue encontramos no militar que estava com o Sargento Sandro na hora do embate. Aquele sangue foi o Estado que oportunizou.  O mesmo que jorrava do rosto desalento e angustiante do nosso querido companheiro ferido.
Honras ao guerreiro e destemido sargento Sandro! Repudio a incompetência do Estado brasileiro!
Corrupção, incompetência, ineficiência e violência costuma andar de mãos dadas com a insensatez do escárnio e do cinismo, todos estes venceram governos, quiçá não vença toda uma sociedade. Culpa também de uma sociedade que está insensível a tudo isso. A Pauta do momento nesta sociedade é quem fica ou quem deixa o poder. Não se fala em outra coisa.
Parte esmagadora dos políticos e da forma como fazem política é corrupta ou incapacitado de propostas e de ideais coletivista. Chegam ao poder também pela falta de capacidade moral e intelectual política de um povo que anseia por comida, dinheiro e favores. Chegam a trocar seu voto por qualquer coisa.
Dessa forma a sociedade também é culpada. E cabe a ela a tutela da moral em expulsar da vida política partidária os homens públicos que alimentam toda essa violência. Não devemos ser beneplácitos, nem tão pouco corrompível ou complacentes com os que governam dessa forma. A sociedade precisa ocupar os espaços de poder e decisão política não por mandatários, mas por decisiva e livre participação. Precisamos eliminar a postura do “faz de conta” e do fazer as coisas como se pudesse fazer num passe de mágica – muito usado por políticos nos discursos de massa.
A sociedade paraibana e brasileira precisa fazer uma construção emancipadora de sua própria constituição da Segurança e da Defesa Social. Sem participação e mobilização da sociedade não haverá efetivamente paz social. Sargento Sandro morreu no cumprimento do seu dever. Portanto, a Sociedade da Paraíba tem o dever de reconhecer sua honra.
O nosso sentimento é de injustiça, revolta, indignação estamos sem palavras. O sargento Sandro não merecia morrer. Nós policiais do 5º BPM estamos arrasados de dor na alma, pois tiraram do nosso convívio um irmão policial. Mas estaremos mais altivos contra a criminalidade.
Há muito tempo os policiais reclamam e pedem a volta da guarnição formada por três homens. Certamente vão escorar suas decisões em números estatísticos e dizer que essa morte não aponta uma deficiência no número de policiais dentro de uma viatura. Devemos ficar aguardando quantos outros morrerem para que os números denunciem uma precariedade no serviço policial?
Queremos que as entidades de classe da Policia Militar se sintam na obrigação de fazer este debate: Morte de policiais, custodia de presos, Risco de vida e a volta das guarnições compostas por três policiais.
Ou será necessário que os policiais comecem a se negar ir pra ruas quando estiverem apenas em dois?
Se forem terão a possibilidade de apenas cumprirem escala – nada mais. Até quando seremos colocados na posição de escravos de um sistema escravizador e opressor? Onde está o Risco de Vida para os Policiais Militares, promessas de campanha não cumprida até hoje? Ou será que os policiais militares não correm risco de vida?
Nossos corações estão apertados, amargurados e aflitos sentindo a falta do companheiro sargento Sandro.
Não somos números, não somos descartáveis. Somos homens e mulheres trabalhando pela sociedade. Somos todos guerreiros. Vivemos numa guerra urbana. Somos os protetores. Somos cidadãos especiais.
Sargento Sandro presente! Presente! Presente em todos nós.

Texto: Astronadc Pereira de Moraes

Sargento PEREIRA.
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