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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Em Jaçanã (RN), uma vitória contra a opressão: entrevista com o 1º prefeito LGBT do PSOL

Em Jaçanã (RN), uma vitória contra a opressão: entrevista com o 1º prefeito LGBT do PSOL
Por PSOL RN
No coração do Agreste Potiguar, o professor Oton Mário, ou o “liso”, como ficou conhecido pela população por fazer uma campanha sem os gastos exorbitantes das candidaturas tradicionais, contou com a força do povo, com o vigor da juventude e foi uma das prefeituras que o PSOL elegeu em 2016. A outra cidade onde o PSOL elegeu prefeitura no primeiro turno foi Janduís, que também fica no Rio Grande do Norte (RN). A campanha de Oton destacou-se por canalizar o sentimento de indignação, consolidando-se com uma campanha ética, propositiva e com um programa construído coletivamente em praça pública como alternativa para a verdadeira mudança que o município necessita derrotando as oligarquias locais que revezam-se no poder, desde antes da fundação de Jaçanã.
Mas a vitória em Jaçanã não foi apenas a primeira do PSOL a ser proclamada em 2016. É, também, um marco para o PSOL: Oton será o primeiro prefeito LGBT do partido.
As eleições em Jaçanã foram, assim como em outras cidades do país, marcadas pela tentativa de desqualificação e por ataques LGBTfóbicos por parte das candidaturas que temiam o êxito eleitoral do PSOL, que em poucos dias passou de uma caminhada com 15 pessoas para tomar as ruas da cidade. As candidaturas adversárias, sem propostas ou elementos políticos para atacar Oton, tentaram, sem êxito, deslegitimar sua capacidade administrativa por ele ser homossexual assumido.
Segundo dados da ONG Transgender Europer (TGEU) publicados em 2015, em 2012, no Rio Grande do Norte, foram registradas 73 denúncias referentes a 148 violações relacionadas à população LGBT pelo poder público, sendo que em janeiro e setembro houveram os maiores registros, de 9 denúncias. Houve um aumento de 231% em relação a 2011, quando foram notificadas 22 denúncias.
Desta forma, a vitória de Oton é também uma vitória contra as opressões em um estado onde o índice de violência contra a população LGBT recebe índices alarmantes.
Abaixo segue a entrevista com o prefeito recém-eleito:
PSOL RN: Oton, o PSOL elegeu duas prefeituras no primeiro turno e as duas são no RN, em cidades onde o coronelismo e o poder aquisitivo geralmente falam mais alto, você já esperava o resultado em Jaçanã ou foi uma surpresa?
Oton Mário: Na verdade, desde que me propus a ser candidato eu acreditava que essa vitória seria possível sim. Eu acreditava na força da juventude e no seu poder de revolução. E assim foi. A juventude jaçanaense, por me conhecer muito bem, abraçou essa causa e fez com que essa conquista acontecesse. Eu sabia que seria muito difícil, quase impossível até, mas algo dentro de mim gritava que nós chegaríamos ao final vencedores.
PSOL RN: Quais foram os principais desafios enfrentados durante a campanha?
OM: Foram tantos os desafios enfrentados, entre eles a briga desigual contra uma oligarquia dominante que se revesa no poder há mais de 20 anos. Fizemos uma campanha do tostão contra o milhão, uma guerra entre Davi e Golias. Fizemos uma campanha sem grupos, sem acordões, sem passado político, sem dinheiro, sem investimentos, sem qualquer apoio político e/ou financeiro. Enfrentamos injúrias e ataques de toda natureza e éramos motivo de chacota ainda no início da campanha Tudo foi feito com “a cara e a coragem”, na raça e na garra. Éramos apenas três pessoas (eu, a vice e um vereador) lutando contra um exército de soldados da velha política. Mas tínhamos o principal: a nossa história limpa e uma campanha baseada em proposta viáveis e sólidas. O povo entendeu a nossa intenção e, capitaneados pela força da juventude, arrebatávamos multidões chegando enfim à vitória.
PSOL RN: Em um Estado onde o índice de violência LGBTfóbica é alarmante, você avalia que a sua vitória foi também uma vitória contra o preconceito?
OM: Com certeza foi. Eu sempre fui uma pessoa muito bem resolvida em relação à minha sexualidade e toda a minha comunidade sempre soube da minha orientação sexual. Não havendo o que falar em relação a minha conduta humana e cidadã ao longo da minha vida, os meus opositores baixaram o nível da campanha com ataques homofóbicos em rodas de conversa e nas redes sociais. Constantemente utilizaram o fato de eu ser homossexual como forma de me depreciar e de me desqualificar perante a minha comunidade. Frases do tipo: “Quem fazer a primeira dama dele?” ou “Vocês vão deixar de votar numa mulher para votar em um ‘viado’?” foram muito replicadas pelos grupos da oposição. Mais que uma vitória contra as oligarquias dominantes, foi sem dúvidas uma vitória contra o preconceito e contra a homofobia, o que me deixa duplamente feliz.
PSOL RN: Quais são as principais metas e os objetivos da sua gestão?
OM: Fazer uma gestão descentralizada, participativa e voltada para atender as reais necessidades da população. Por não estar preso a acordões e a nenhum um grupo político, sei que faremos um governo popular com vistas a cumprir integralmente o Plano de Governo que propagamos amplamente durante a nossa campanha. Vamos reconstruir a cidade, fazer valer as políticas públicas e mostrar que é possível fazer uma gestão ética, transparente e justa.
PSOL RN: a juventude foi às ruas em 2013 questionar a velha forma de fazer política, como você vê o PSOL e as eleições neste contexto?
OM: Acho que as eleições deste ano são um reflexo dos movimentos de rua ocorridos em 2013. Penso que as pessoas estão cansadas da velha política e das suas velhas práticas. Isso pode ser medido por uma cidade tão pequena como Jaçanã e outras aqui em nosso entorno. Em muitas cidades a população optou pelo novo e por pessoas que nunca foram políticos, como foi o meu caso. Acredito que o PSOL tem um papel muito importante nesse novo cenário, primando por sua ética, pela sua fidelidade ideológica e pela construção de um novo fazer político em nosso país. É verdade que ainda estamos engatinhando, mas os avanços que obtivemos nessas eleições já devem ser celebrados e servidos como parâmetro para novas conquistas.
PSOL RN: Que recado você quer deixar para as pessoas que estão desacreditadas com a política e como você avalia o alto índice de abstenção nas eleições este ano?
OM: Penso que as pessoas estão desacreditadas na política porque não lhes postas opções para mudar. Os políticos e as práticas políticas são sempre as mesmas e talvez também lhes falte educação política, informação, conscientização. Penso que é preciso que as pessoas saiam de suas ‘zonas de conforto’ e partam para a ‘zona de lutas’. Só conseguiremos derrotar a velha política se nos ingressarmos no meio dela com a nossa nova visão e com o nosso novo fazer. Assistir a tudo da poltrona e reclamar não resolve muito. É preciso agir e uma das formas é aproveitar o processo democrático e entrar na disputa. Me propus a fazer uma campanha educativa e o resultado foi a vitória. É possível, mas é preciso acreditar, arregaçar as mangas e cair em campo. As abstenções provavelmente são um reflexo desse descontentamento das pessoas com a velha política e com seus representantes, mas acredito que quando os eleitores se abstêm isso não seja um forma de protesto, mas sim de deixar que outras pessoas escolham em seu lugar. O que falta é conscientização política.
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